Espaço MEMÓRIA PIRACICABANA

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Santos Dias: mais um operário assassinado pela PM

No dia primeiro de novembro de 1979, o jornal O Diário, destacou a seguinte reportagem: “Culto pela morte de Santos”. Santos Dias da Silva era um operário, membro da Pastoral do Mundo do Trabalho, líder sindical e pai de duas crianças. Foi assassinado pelo policial Herculano Leonel no dia 30 de outubro em frente a uma metalúrgica na Zona Sul de São Paulo por volta das 14 horas. Sua morte teve comoção nacional e mais de 200 mil metalúrgicos acabaram aderindo à greve. Lideranças políticas e sindicais como Fernando Henrique Cardoso (membro do MDB) e Luis Inácio Lula da Silva (sindicato ABC) se posicionaram contra o assassinato.
            
O corpo de Santos ficou retido, mas com a grande mobilização e interferência dos sindicatos e parlamentares ele foi liberado. No dia seguinte a sua morte seu corpo foi velado na Igreja da Consolação e contou com a presença de mais de 10 mil pessoas que fizeram um cortejo da Praça da Sé até o Cemitério do Campo Grande, Zona Sul de São Paulo, onde seu corpo foi enterrado. Em Piracicaba na tarde do dia 31 de outubro os Sindicatos, Diretórios, Centros Acadêmicos e Associações diversas distribuíram convites para um culto ecumênico, no subsolo da Catedral de Santo Antônio, em memória do operário. No convite havia reivindicações como: a punição dos policiais que assassinavam os trabalhadores em defesa do Estado, o direito à greve, liberdade e autonomia sindical e o reajuste de salários.



Segundo o relato da esposa do operário, Ana Dias, no dia 29 de outubro, os metalúrgicos decretaram greve por melhores salários e condições de trabalho e se dirigiram após as 4 horas da manhã ao piquete[1] em frente da Fábrica Silvânia, no bairro de Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Muitos companheiros, como Ana, ressaltaram que os trabalhadores deveriam ficar juntos, pois a polícia estava querendo deter quem se isolasse como já tinham feito anteriormente, detendo 343 operários do Comando da Greve.

Segundo relato de outras testemunhas, a polícia chegou com duas viaturas dando tiros para o alto, a fim de dispersar os trabalhadores. Em meio ao alvoroço, Santo Dias tentou resgatar um companheiro que estava sendo preso, porém acabou sendo atingido no abdômen por um tiro disparado pelo PM Leonel.

No dia 8 de abril de 1982 o policial Leonel foi condenado a seis anos de prisão pelo Conselho de Sentença da Primeira Auditoria Militar do Estado de São Paulo (o julgamento ocorreu de maneira “rápida” devido a grande pressão popular). No entanto, em 16 de dezembro de 1983, o Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo, devido à decisão unânime de quatro juízes, o réu foi absolvido. 

Ana Dias descreveu sobre este acontecimento: “Foi mais uma grande decepção. Mas não será o fim da minha luta por um mundo mais justo... Parar de lutar em defesa dos oprimidos seria fazer exatamente o que querem os que nos oprimem. Seria concordar com os que assassinaram o meu marido.” Depois de 25 anos após a morte de Santos, sua filha Luciana Dias da Silva publicou um livro “Santos Dias – Quando o Passado Se Transforma em História.”



Bibliografia 



[1] Quando os trabalhadores grevistas ficam na frente do local de trabalho convencendo os não grevistas a aderirem.

Ana Paula das Neves, aluna do 6º semestre de História da UNIMEP.
Pesquisa realizada no acervo do jornal O Diário.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Gemini IV: Guerra Fria e a corrida espacial

Em junho de 1965, a revista Fatos & Fotos fez uma reportagem sobre uma missão espacial da NASA, a Gemini  IV. Na década de 60, em plena Guerra Fria, a disputa espacial  entre União Soviética e Estados Unidos e quem pisaria na lua primeiro ficou acirrada. 


“O vôo da Gemini  IV e as experiências levadas a cabo em seus 4 dias de duração surpreenderam os expertos em corrida espacial. Com a saída de Leonov da cápsula, em março, a vantagem dos russos aparentava ser imensa, praticamente inalcançável a curto prazo, ou seja, antes da chegada à Lua. Mas a utilização de uma pistola-foguete orientando o passeio cósmico, a permanência no espaço por mais de três dias após o passeio, a permanência no espaço de dois homens durante o tempo teoricamente necessário para se chegar a Lua, a tentativa  de realizar o primeiro encontro orbital (embora não tenha sido realizado, mostrou o caminho para fazê-lo) e uma série  de outras vantagens de menor importância para o grande público colocaram os americanos  cabeça a cabeça com os soviéticos.”


As experiências com a Gemini tinham como prioridades testar, preparar e melhorar equipamentos para uma viagem à Lua, evento que ocorreu somente alguns anos depois, em 1969, com a missão Apolo 11.


Vivian Monteiro, historiadora do Espaço Memória Piracicabana.

Pesquisa realizada no acervo Rocha Netto.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Revista do Arquivo Municipal

Aqui no acervo temos uma extensa coleção de livros da Revista do Arquivo Municipal, publicados pelo Departamento de Cultura de São Paulo. São publicações das décadas de 1940,1950,1960,1970. Com temas dos mais variados como: folclore, história, política, economia.


Até artigos publicados por Chiarini podem ser encontrados nessa revista.




Vivian Monteiro, historiadora do Espaço Memória Piracicabana.

Pesquisa realizada no acervo João Chiarini.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Alma Cabocla de Setúbal

O livro “Alma Cabocla”, de Paulo Setúbal, é composto de vários poemas com linguagem simples de sua terra natal. Paulo Setúbal nasceu em 1893 na cidade de Tatuí e faleceu no ano de 1937 na cidade de São Paulo. Com quatro anos seu pai faleceu e sua mãe teve que cuidar dele e de seus oito irmãos sozinha. Por este motivo ela teve que começar a trabalhar e a única opção que encontrou foi deixá-lo em um internato. Lá ele começou a se interessar por literatura e filosofia e em 1935 entrou na Academia Brasileira de Letras. Exerceu diversas atividades, foi advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista.

            Temos no acervo duas edições deste livro Minha Alma Cabocla: a 4ª edição, na qual ele inicia com uma dedicatória a sua mãe e no final tem a nota dos editores da 2ªedição e a relação de outros livros que ele fez; e há a 6ªedição, nesta ele traz um novo capítulo intitulado de Poesia Inédita. Setúbal conta que fez esta poesia em uma festa de aniversário. Ele dividiu sua obra em 4 capítulos: Minha Terra (10 poesias); Morta de Rosas (12 poesias); Flocos de Espuma (13 poesias); e Sertanejas (5 poesias).
            No capítulo Minha Terra destaco a poesia Os Colonos. O poema trata os colonos de forma romantizada. Os trabalhadores são descritos como fortes e alegres quando separam os grãos do café, nela aparecem os imigrantes italianos e espanhóis. Já no capítulo Morta de Rosas a poesia Sob um pessegueiro, dedicada ‘ao Ademar, irmão e amigo’’ do autor, conta uma aventura que ele teve aos 15 anos, quando estava acompanhado de outra pessoa. Eles encontraram sozinhos uma árvore cheia de frutos e passarinhos e que devido, principalmente, ao cenário romântico terminaram em beijos e carícias de baixo da árvore. No capítulo Flocos de Espuma, a poesia Sinhá Anna, é sobre uma velhinha muito querida por todos. O poema fala sobre a saudade que sente dela e de algumas lembranças como do lugar em que ela vivia e que sempre lhe trazia broinhas fresquinhas. E no capítulo Sertanejas, a poesia Férias de junho, é sobre o regresso a terra natal, onde reencontra pessoas simples e caboclas. Para ele é um tempo que passa longe dos livros e estudos, sem se importar com as preocupações da vida cotidiana, um momento de fuga. Para finalizar, na 6ª edição a nova poesia Um Bebê, conta sobre a alegria de se ter um bebê em casa e descreve nela todos os detalhes sentimentais dessa experiência.
            A obra de Setúbal é fantástica, suas poesias são bastante descritivas, trazem uma linguagem fácil e fazem a imaginação do leitor viajar pela sua terra natal, como se realmente estivesse presente. O interessante em suas poesias é que ele sempre romantiza a vida no campo e apresenta a vida urbana como um lugar de preocupações e de caos, levando o leitor a impressão que se ele pudesse voltaria de vez para aquelas terras.

Ana Paula das Neves, aluna do 6º semestre de História da UNIMEP.
Pesquisa realizada no acervo Rocha Netto.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A propaganda no processo formador da sociedade

 Muitos dos nossos desejos e vontades são influenciados por propagandas comerciais, em TV, jornais, revistas. Quem nunca sentiu sede depois de um comercial de refrigerante, ou aquela fominha depois de passar por um outdoor na estrada? A tecnologia da última década tem mostrado a presença marcante de campanhas publicitárias em nosso cotidiano, a cada click uma marca ou serviço sendo oferecido.

           Assuntos antes vistos como tabus são retratados em comerciais de marcas famosas, caso recente são as roupas sem gênero específico, ou maquiagem para homens. No entanto, existem armadilhas. A propaganda pode ao mesmo tempo dar visibilidade para temas relevantes (nem sempre a marca realmente acredita e apoia minorias) como também pode reforçar estereótipos.


            Nas páginas da revista “Manchete” do ano de 1959 e 1964, podemos identificar muitas propagandas. É bom ressaltar que os principais leitores da revista Manchete eram mulheres da classe média brasileira, sendo assim o público alvo da publicidade, com os bens de consumo voltados a elas, ou que era considerado como sendo produtos para o público feminino. Os homens também são submetidos às propagandas, nas páginas vemos marcas fazendo a relação direta entre consumo e sucesso profissional.





Maycon Costa, discente do quarto semestre do curso de História UNIMEP.

Pesquisa realizada no acervo João Chiarini

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ida Schalch – Uma das mulheres pioneiras na arte Piracicabana

Piracicaba tem uma rica história ligada às artes plásticas e tem o privilégio de ser casa de brilhantes artistas. No entanto, nos séculos passados, poucos deles eram mulheres, visto que se tratando daquela época, muitas não tinham espaço nem o porquê se dedicar à pintura como uma arte.

“[Ida] Ensinava pintura (...) Pintura como passatempo, menos do que arte. A moça do passado precisava conhecer algumas manualidades: a pintura, pugilar ao piano, bordar. Era uma vida simétrica, uniforme. Diziam que, com isso estava apta ao casamento”, dizia João Chiarini num texto em homenagem à ela no dia 12 de setembro de 1961, publicado na Folha de Piracicaba. 

Neste mesmo ano, Ida fazia 80 anos e se despedia de seu ateliê no Colégio Piracicabano, para se aposentar. Também pudera, já haviam se passado 40 anos ensinando pintura às alunas internas, profissão que amava desempenhar. Piracicaba e o colégio eram suas paisagens favoritas da artista para pincelar. 

Ela e suas duas irmãs estudaram no Colégio Piracicabano e se formaram professoras lá. Seu estudo da pintura começou apenas em 1911, depois de já formada, com Alípio Dutra. Quando ele teve de partir para a Europa estudar, Ida Schalch passou a ser aluna de Joaquim de Mattos. A parceria dos dois rendeu a considerada primeira exposição pública de pintura da cidade, ocorrida em julho de 1920, nos espaços da Universidade Popular.

A artista gostava muito de pintar flores e o cotidiano do Colégio. “Possui um colorido gostoso, autêntico puro (...) Com naturalismo, são significativos. Mas não só pinta flores, mas paisagens, casas e figuras. É arte imaculada mas não estilizada (...) Os seus assuntos são simples: são ela mesmo”, escreveu Chiarini.

Agora sua arte se encontra exposta embelezando os espaços do Centro Cultural Martha Watts, local onde está maior a parte de seu acervo e que guarda histórias dos anos bem vividos de Ida como professora de pintura no Colégio Piracicabano.

“Ida Schalch, mestra de gerações de anos do antigo Colégio Piracicabano, foi uma artista extremamente sensível e consciente de sua condição de mulher-artista numa sociedade ainda regulamentada pelos padrões masculinos” (FERREIRA, 1992, p.9)

Outras fontes:
- Livro “Memória, Encantamento e Beleza – Colégio Piracicabano, 125 anos” de Beatriz Vicentini Elias
- Site "A Província"


Thaís Passos da Cruz, estudante do curso de Jornalismo da UNIMEP. 
Pesquisa realizada no acervo O Diário.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Como desapareciam os mortos da tortura?


Em 1979 o jornal "O Movimento" começou a trazer temas que foram obscurecidos pela ditadura militar: como os policiais faziam para “sumir” com os torturados e mortos políticos.
A Comissão da Verdade, criada em 2011, conseguiu expor alguns dos algozes da Ditadura, no entanto, em 1979, criticar a polícia ou falar sobre desaparecidos políticos ainda era muito difícil. No final dos anos 70 ainda estávamos sob regime ditatorial, apesar de já conseguir mirar em um caminho de abertura política.


Para que tudo funcionasse de acordo, como uma cortina de fumaça, a polícia precisava de uma rede de apoio. Por conta da tortura ser legitimada pelo Estado, os assassinatos dentro de departamentos como o DOI-CODI eram comuns. Para poder “desaparecer” com os corpos sem ter que lidar com familiares e amigos buscando o paradeiro dos presos, a polícia construiu uma rede de trocas e favores, resquícios disso permanecem até os dias atuais.


Segundo a reportagem, foi criada uma conexão macabra entre PM e IML (Instituto Médico Legal), esta última fornecia atestados de óbito com informações totalmente desconexas com a realidade ao mesmo tempo em que servia de esconderijo dos corpos.

 “Em primeiro lugar, o Instituto é um poderoso fornecedor de atestados de óbitos. Graças a isto, por exemplo, é que Eduardo Leite, que usava o codinome “Bacuri”, pode ter sido entregue à sua família, em 1970, com a versão da morte em tiroteio. Sem essa máquina de atestados, como explicar o fato de Bacuri estar com os dois olhos vazados, as orelhas decepadas e todos os dentes arrancados?”.

Os chamados “cemitérios de repressão” como o de Perus, era um dos locais onde enterravam como indigentes e com nomes falsos os corpos de presos políticos.

Como era o esquema de ocultação de cadáveres?

“A polícia tomava conhecimento de um atropelamento com morte em algum ponto da cidade. Levava o cadáver do atropelado para o IML e lá o substituía pelo do preso morto. Convocava as testemunhas que viram de fato o atropelamento, o motorista que atropelou, e todas elas confirmavam honestamente. O morto era um desconhecido, enterrado como indigente.”

Essa era apenas uma das formas encontradas pela polícia para esconder as mortes sistemáticas que aconteciam nos porões das delegacias e casas de torturas.


Vivian Monteiro, historiadora do Espaço Memória Piracicabana.

Pesquisa realizada no acervo O Movimento.